24 de jan de 2012

João 2:1-11

ESTUDO DO LIVRO DE JOÃO
Material divulgado pela União Missionária Brasileira

Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galiléia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”. Mas Jesus lhe disse: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”. Então, ela falou aos serventes: “Fazei tudo que ele lhes disser”. Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Jesus lhes disse: “Enchei de água as talhas”. E eles as encheram totalmente. Então, lhes determinou: “Tirai agora e levai ao mestre-sala”. Eles o fizeram. Tendo o mestre provado a água transformada em vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo e lhe disse: “todos costumam por primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora”. Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Cana da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.

O Evangelho de João continua sendo um mistério na sua beleza e sua profundidade espiritual. Como já mostramos em outro lugar, enquanto o lemos, às vezes não temos como saber quem é que está falando. O velho João, na medida em que meditava, identificou-se a tal ponto com seu Senhor que, sem que o leitor perceba, acrescenta suas próprias palavras às de Jesus (Exemplo: 3.5-21). João é Oriental; ele prefere uma linguagem de imagens e responde a perguntas fundamentais com uma história, onde a coerência dos fatos externos fica sujeita à mensagem em si.

Você já percebeu que João não nos transmitiu nenhuma parábola do Senhor? Parábolas foram o principal meio que Jesus usou para transmitir verdades. Por que João não as usa? O próprio estilo do seu Evangelho às vezes se aproxima ao da parábola e, novamente, fica difícil descobrir em que altura o texto passa da narração de fatos reais ao mundo irreal, misterioso de uma parábola. João viu além do horizonte; ele leu nas entrelinhas e assim é que ele escreveu. Sua obra se assemelha a uma obre de arte, a um bordado extremamente belo, e com isso encontramos as parábolas trabalhadas no próprio texto.

Outra característica desse Evangelho é sua variedade de fontes. Por razões desconhecidas e sobre as quais só podemos especular, o Evangelista às vezes inseriu na sua matéria tradições visivelmente anteriores. O leitor atento percebe que não é o estilo do autor. Nesses textos João é o redator. O Evangelista usou uma tradição anterior e a adaptou ao seu fim, introduzindo-a na melhor maneira possível no fluxo da narração.

Como dissemos, tudo que tornaria manifesta a “glória do Senhor revelada em Jesus” interessava ao velho discípulo. Ele quer que o leitor também saiba e creia no mistério que ele viu e ferozmente defendeu perante as várias correntes gnósticas de seu tempo. No texto de hoje estamos, muito provavelmente, diante de uma tradição que não veio da mão do apóstolo, mas era redigida e adaptada por ele, assemelhando-se assim a uma parábola.

(2.1) Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galiléia, achando-se ali a mãe de Jesus. (2) Jesus também foi convidado, com os seus discípulos, para o casamento. As especulações sobre o “depois de quê?” em alguns comentários bíblicos revelam desconhecimento da cultura judaica. As primeiras mal-interpretações surgem por causa da tradução incorreta.

O texto no original diz: “No terceiro dia...” e não “três dias depois”. Cada judeu sabe que o tal “terceiro dia” corresponde à nossa terça-feira, pois para ele a contagem dos dias remonta ao primeiro livro da Bíblia, à “Gênesis”, onde a criação começou com o “primeiro dia” (o nosso “domingo”) e terminou completada no “sétimo dia”, o “sábado”.

Desde os tempos mais antigos, o “terceiro dia” é tido como dia ideal para casamentos, pois somente dele, em contraste com os demais dias, é dito duas vezes “... e Deus viu que era tudo bom” (Gen. 1.10 e 1.12). Os perspicazes rabinos viam nisto um duplo bom agouro: um para a noiva e outro para o noivo. Assim, tanto o casamento em Caná quanto a quase totalidade de casamentos judaicos ainda em dia de hoje acontecem no “terceiro dia”, isto é, na terça-feira.

Jesus já se encontrara ao norte, na Galiléia, com alguns de seus seguidores. Nada nos é dito quanto à razão da presença de Maria na festa. Jesus também foi convidado como filho mais velho, substituindo o pai, que aparentemente não existia mais. A hospitalidade oriental tem como certo que “amigos do amigo”, neste caso os discípulos, naturalmente foram incluídos no convite.

O que primeiro chama a atenção é a ignorância do fato da ruptura de Jesus com sua família biológica, atestada nos Evangelhos sinópticos (Marcos 3.31-35). Nenhum outro Evangelho sabe de uma convivência de Jesus com sua família após o encontro com João Batista. Não sabemos, portanto, onde historicamente encaixarmos o relatório.
Como sabemos através do verso 5, a mãe de Jesus tinha alguma posição hierárquica na casa dos noivos. Ela dava ordens aos empregados.

(3) Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”. Festas de casamento judaicas são celebradas na casa do noivo e perduram, às vezes, até sete dias, durante os quais amigos e parentes estão chegando e saindo. (Uma dica: Você quer ter uma idéia de um casamento judaica? Assista o filme “O violonista no telhado”). Os comentaristas mais renomados discordam quanto à razão do recado dado a Jesus. Muitos querem nos fazer crer que Maria, ansiosa para ver um milagre realizado pelo seu filho, aproveitou a oportunidade. A premissa do conhecimento da amplitude do chamado de seu filho não tem base bíblica; ela é fruto da tradição posterior.

Outros, mais sóbrios, vêem como absolutamente normal sua observação. Jesus, como filho mais velho, poderia talvez ajudar na situação constrangedora? Falta de “vinho de casamento” seria uma humilhação para o novo casal. É o pedido de ajuda de uma mãe preocupada que, de alguma forma, fez parte responsável da comunidade festiva.

(4) Mas Jesus lhe disse: “Mulher, que tenho eu contigo? A concluir pela resposta, Maria errou. A expressão “mulher” (correspondendo a “Minha Senhora!”) nesse contexto não revela falta de respeito, mas sim de ordem, que pede respeito. Jesus rejeita com uma expressão clara a intromissão de sua mãe. Expressões semelhantes são usadas nos textos da Antiga Aliança onde houve intromissão, como em Juízes 11.12; 1 Rei 17.18 ou 2 Crônicas 35.21. (Confira também Marcos 1.24!)

Com o uso da palavra “mulher” em lugar de “mãe”, Jesus deixou claro, de uma vez por todas, que os laços biológicos não tinham valia no seu ministério. Por que então Ele estava junto com Maria na festa?

Ainda não é chegada a minha hora”. A essa altura, a linguagem de João volta-se para o simbólico. Em todo seu Evangelho a “minha hora” é tida como sinônimo da hora da morte, da cruz, da glorificação do Pai no Filho. (Compare: João 7.30/ 8.20/ 12.23 e 27/13.1 / 17.1). Essa hora Jesus entendeu no seu íntimo como “sua hora”. Ou será que uma dádiva de vinho teria alguma ligação com a Sua morte? Deixaremos a resposta para depois.

O texto deixa claro que Maria nada disso considerou. Ela interpretou a resposta de Jesus como um simples “ainda não”. Disso dá prova sua ordem aos empregados da casa:

(5) Então, ela falou aos serventes: “Fazei tudo que ele lhes disser”. Uma das características no Evangelho de João são as repetidas mal-interpretações. Enquanto Jesus fala em um nível, os discípulos ou seus interlocutores, não entendendo, respondem em um nível humano, inferior, inadequado, provas da falta de compreensão deles.

(6) Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Repentinamente o autor introduz seis enormes talhas de pedra. Uma metreta corresponde a 39 litros, o que corresponde a um volume total de aproximadamente 600 litros. Em virtude do conhecimento da Santidade de Deus e da própria necessidade de purificação, o judeu conheceu muitos ritos de lavagem ritual (Mateus 15.1-20 ou Marcos 7.1-4).

A purificação das mãos, por exemplo, não acontecia através de lavagem. Deixava-se correr uma pequena quantidade de água correr pelas mãos, a partir do pulso, conforme ritual cuidadosamente estabelecido. Não se tratava de higiene, mas de rituais.

Até hoje não existe água corrente na região de Caná. Toda a água vinha do poço e era limitada. Uma festa de casamento de dias em uma região quente, e na qual havia inclusive os banhos rituais dos noivos, exigia muita água. Como parece, as talhas mencionadas já estavam vazias quando o vinho ameaçou faltar.
Nenhum comentarista encontrou até agora uma explicação razoável para o número de talhas. O número de seis não faz sentido, nem alegoricamente. Se imaginarmos o tamanho das vasilhas, peças raríssimas, caras, que casa nobre seria essa?

(7) Jesus lhes disse: “Enchei de água as talhas”. E eles as encheram totalmente. Encher seis talhas desse tamanho com água trazida do poço, escasso, leva tempo. Ninguém parece ter percebido.

(8) Então, lhes determinou: “Tirai agora e levai ao mestre-sala”. Eles o fizeram.

(9) Tendo o mestre provado a água transformada em vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam tirado a água), chamou o noivo...

Não há descrição do milagre. Esse simplesmente é presumido. Ninguém percebeu transformação alguma. Quando o mestre-sala (geralmente um escravo responsável pela ordem na sala) provou a água (que havia se transformado em vinho), ele não demonstrou conhecimento do perigo de fim de estoque; ele o provou pensando em um segundo lote aberto.

(10) e lhe disse: “todos costumam por primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora”. Acaba a narração. A crítica do mestre-sala, contendo um elogio, serve para provar que houve transformação.

Nem o mestre-sala, nem os convidados e muito menos os noivos percebem um milagre. Saboreiam, sem saber, o valor do precioso líquido. Nada ouvimos da mãe de Jesus, antes tão preocupada; nada de Jesus. Ele e sua família desaparecem. E novamente percebemos que estamos envolto no irreal, misterioso, contraditório.

O mais estranho é o presente, a quantidade de vinho fino. Como Jesus, recentemente vindo do encontro com o Batista, que pregava abstinência e ascetismo (Lucas 1.15), presenteia uma festa de casamento com uma tal quantidade de vinho? Isso era responsável?

Alguém com muita razão disse que, se o tal casamento acontecesse no Brasil, chamassemos Jesus para transformar o vinho em água. “Crente não bebe” (na presença de outros crentes...)! Os pastores, ao querer justificar esse milagre, palavra por palavra, são obrigados a torcer A Palavra. Lemos por exemplo os seguintes comentários:

Jesus queria presentear o casal com uma reserve grande de vinho, ou: Somente as camadas superiores nas talhas haviam se transformado em vinho, ou: O mestre-sala simplesmente se enganou e o vinho em seguida acabou, e outros mais consideram que o autor da história poderia ter exagerado um pouco para aumentar o tamanho do milagre. Tudo isso não convence, menos ainda quando se alega expor “a Palavra de Deus” (2 Tim.3.16).

(11) Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. Para o apóstolo parecem não existir escrúpulos. Ele menciona que os seguidores de Jesus creram porque viam nesse milagre um sinal de Sua glória. Logo em seguida – isso é típico para João – ele relativiza a natureza dessa fé que nasce de milagres (2.23-25).

Se fechassemos aqui o estudo do milagre do vinho, ficaríamos insatisfeitos. Temos que admitir que, lendo o texto da maneira como o fizemos, ele não nos abriu os olhos. Considerando-o como um todo, fica a impressão de uma irrealidade nebulosa.

Ao mesmo tempo ele nos fornece dados exatos, detalhes que não sabemos encaixar. Ficam perguntas sobre perguntas, sem respostas. O maior inconveniente em tudo isso é a motivação do milagre, que não aparece. Enquanto nos outros muitos milagres, relatados nos quatro Evangelhos, a ação de Jesus nasce quase exclusivamente da misericórdia Divina perante a miséria ou o sofrimento humano, aqui não podemos, mesmo se formos apreciadores de um bom vinho, descobrir um sentido real, benéfico.

Em certa altura da narração, a história novamente parece ter entrado no âmbito de uma parábola. Mas qual seria seu sentido? O enigma no Evangelho de João ainda continua.

O próximo estudo nos trará algumas luzes.

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