23 de jun de 2011

Introdução ao Livro de João

ESTUDO DO LIVRO DE JOÃO
Material divulgado pela União Missionária Brasileira

Para o cristão de hoje, existem algumas dúvidas a respeito da validade do Antigo Testamento. Alguém perguntou: “A lei do Antigo Testamento (AT) ainda vale para nós?”

O evangelista João era judeu. A “Bíblia” dele era o que conhecemos como “Antigo Testamento”. A “Bíblia” que Jesus lia, era o Antigo Testamento também. Por essa razão damos início à introdução ao Evangelho de João com uma breve abordagem de “como” nós, cristãos, devemos olhar as Escrituras do Antigo Testamento.

Temos certeza de que, assim, obteremos maior proveito do estudo. Não podemos, como acontece em muitas Igrejas, misturar os textos como nos convém. A “Torá” (Lei, instrução) foi dada à Israel. Como o cristão deve olhá-la?

AUTORIDADE DO ANTIGO E DO NOVO TESTAMENTO

A nossa Bíblia é um compêndio de 66 livros, escritos por diferentes autores em diferentes épocas e em diversos lugares para atender a diferentes necessidades. Mesmo sendo inspirados por Deus para dizerem aquilo o que escreveram, todos os diversos autores tinham suas próprias perspectivas, suas próprias convicções, seus próprios pontos de vista, suas próprias necessidades, seus próprios objetivos, compreensões e ênfases teológicas. Isso vale para todos os livros, tanto do Antigo como do Novo Testamento, reunidos na nossa Bíblia. Por trás de cada um dos livros temos o mesmo “sopro de Deus” apresentado de forma diferente pois os próprios autores eram pessoas diferentes.

Falamos desse “sopro de Deus” quando dizemos que a Bíblia é “inspirada por Deus”. De maneira nenhuma se trata de algo como a “psicografia” onde o médium escreve sob influência estranha. Os autores dos livros bíblicos usaram sua própria linguagem e seu intelecto dado por Deus (razão) quando procuraram pôr em palavras aquilo que Deus lhes havia revelado ou o que haviam testemunhado.

O ANTIGO TESTAMENTO

Quando Jesus viveu , os judeus tinham na Torá (e continuam tendo até hoje) a sua “Lei Maior”e Leis esses que Deus entregou a Moisés para indicar como seu povo devia adorá-lo e se comportar como comunidade pertencente a Ele. São Leis Sagradas que devem ser aprendidas, discutidas e seguidas. Ainda havia muitos outros livros sagrados, como os proféticos, os livros poéticos (salmos), históricos e outros.

Somente algum tempo depois do início do cristianismo, uma série desses livros hebraicos - vinte e dois no total - passou a ser considerada “Cânon Sagrado das Escrituras”, a Bíblia judaica atual. Os cristãos, sob o nome de “Antigo Testamento”, têm esse “Cânon judaico” como primeira parte da Bíblia. Jesus era judeu. A Bíblia que Ele lia era o “Antigo Testamento”. Jesus lia os textos do AT, conhecia-os e os interpretava.

Para o judeu, a Torá é “Instrução para Vida”, amada e venerada. Nela o judeu encontra seu Deus. Ele acredita ser possível viver de acordo com a Santa Lei. A Lei de Deus alegra seu coração. Por isso, o crente judeu é convidado a meditar na Santa Lei de Deus de dia e de noite. “... tem o seu prazer na Lei do Senhor, e na sua Lei medita de dia e de noite” (Salmo 1.2).

Veja no salmo 119 como o salmista se alegra quando pensa na Lei. Nós, cristãos, aprendemos através de pregações “ignorantes” a olhar “a lei” (quando mencionada principalmente nos escritos de Paulo) como algo “ruim, morta e ineficaz”. Não é assim que o judeu a vê. O judeu se alegra com a “Lei de Deus, a “Torá”, confiada a ele através de Moisés”.

O QUE MUDOU COM O ‘NOVO TESTAMENTO”?

O apóstolo Paulo era fariseu, um judeu piedoso, profundo conhecedor e defensor da Lei (confira Gálatas 1.14 e capítulo 9 de Atos). No caminho para Damasco ele teve um encontro com Jesus ressurreto. Esse encontro colocou o zeloso fariseu perante duas alternativas: Salvação vinda da Torá (como o judeu entende que seja assim) ou “Salvação pelo Cristo crucificado e ressurreto”. Paulo decidiu-se, incondicionalmente, pelo segundo. Ele, que tinha se esmerado em guardar toda a Lei, se viu repentinamente como “condenado” por ter trabalhado, sem o saber, “contra” a vontade do seu Deus.

Suas declarações, como: “... o homem não é justificado por obras da Lei, e sim, mediante a fé em Cristo Jesus” (Gal 2.16) ou: “... se a justiça é mediante a Lei, segue-se que morreu Cristo em vão” (Gal. 2.21) são um resultado do seu encontro com Cristo. Estranho para o judeu, esse raciocínio veio a ser o cerne da doutrina cristã.

A Lei de Deus é santa e boa, como o próprio Paulo afirma em Romanos 7.12. Paulo entendeu que o problema não está na Lei, mas no homem incapaz de cumprí-la. Jesus não veio para revogar (tornar sem efeito) a Lei, mas sim para cumpri-la em nosso lugar (Mateus 5.17). Jesus foi o único que guardou a Santa Lei. Por isso Ele se tornou a “nossa Justiça” (leia 1.Cor.1.30-31). Assim, a Salvação é dádiva de Deus, não resultado da observância da Lei (que é boa).


O CRISTÃO TEM QUE OBSERVAR A LEI DO ANTIGO TESTAMENTO?

O cristão não precisa e nem mesmo é capaz de cumprir a Lei de Deus. A Torá é a revelação da vontade de Deus para Israel constituindo-se numa legislação que abrange toda a vida e cultura de seu povo, desde alimentação, saúde, higiene, moral, jurisprudência, solenidades, culto sacrifical e modo de adoração. Não podemos como “não-judeus”, que somos, pegar a bel-prazer pedacinhos da “Torá” e fazer disso e daquilo uma exigência cristã.

Por exemplo, enfatizar o dízimo e ignorar que a Lei considera pecado grave quando o homem corta sua barba. Ou: copiar alguns ritos dos judeus (grande moda nas igrejas neo-pentecostais) sem entender nada de seu contexto cultural e religioso e, muito menos, observá-los. Nós não somos judeus e não foi a nós que Deus confiou a Lei, (leia Romanos cap.3!).

Quando os gentios (não-judeus) começavam a juntar-se à Igreja judia-cristã, logo surgiu a questão: “Os cristãos “não judeus” precisam guardar a Lei?” (confira Atos cap.15) e no “Primeiro Concílio Apostólico” foi decidido que “não”. Foram formuladas algumas “recomendações”, a título de exceção, aos cristãos de origem não-judaica para que observassem certas abstinências, pois “fazendo assim, fariam bem” em observá-las (Atos 15,28-29).


COMO O CRISTÃO DEVE LER O ANTIGO TESTAMENTO?

Desde o início do cristianismo, a leitura da “Lei e dos Profetas” (Antigo Testamento) era prática habitual nas reuniões dos cristãos. Um dos Pais da Igreja (Justino, Mártir), escreveu: “... no dia chamado domingo, todos os que vivem nas cidades ou nos campos reúnem-se em um só lugar e que as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas sejam lidos, tanto quanto o tempo permitia” (I Apol.67).

A vida de Jesus, como vemos tanto nos quatro evangelhos quanto nos escritos de Paulo, foi sempre interpretada à luz das Escrituras judaicas (do Antigo Testamento). Esses livros, tanto o “Pentateuco (os primeiros cinco livros da Lei) quanto os profetas e os Salmos eram de amplo uso entre os cristãos, que os examinavam para ver o que revelaram sobre o desígnio (Vontade, ação) de Deus e especialmente no modo como ele se cumpriu em Cristo.

Em todo lugar onde o cristão reconhece no Antigo Testamento o “Pai” de Jesus Cristo agindo ou falando, ele aceita as Palavras como válidas também para ele. Os dez Mandamentos por exemplo, dados a Moisés (Êxodo 20) fazem parte da cultura cristã. Os profetas, muitas vezes sem saber, falaram da pessoa de Cristo. Quanto mais os primeiros cristãos liam os profetas, mais claro lhes aparecia a pessoa de Cristo (leia 1.Pedro 1.10-12).

As partes da Lei destinadas exclusivamente à nação israelita (cultura, saúde, alimentação, jurisprudência etc.) e os relatos históricos (guerras etc.) não interessavam e não tem utilidade para nós cristãos, a não ser (em alguns casos) no sentido alegórico (simbólico).

A FÉ NO JUDAÍSMO E A FÉ CRISTÃ TÊM A MESMA ESTRUTURA?

Há uma diferença notável entre a fé cristã e a fé judaica.

O Judaísmo tem sua base na “Lei de Moisés”, dada por Deus no Monte Sinai. Moisés é o “representante da Lei”. A Lei foi dada para ser estudada, vivida e discutida. Em uma longa sequência de líderes espirituais ocorrida durante centenas de anos, a Lei fora interpretada e reinterpretada por muitos e muitos líderes (Rabis). O judaísmo conhece um grande número de Mestres que remontam todos eles a Moisés.

A “Mishna”, comentários da Lei (lit.”cerca”) que deveria protegê-la, conhece setenta memoráveis representantes da Lei. O “Talmude” (uma coleção ampliada de comentários que rege o dia-a-dia do judeu fiel até hoje) e que recebeu sua forma definitiva somente no século 2 d.C. é obra de aproximadamente dois mil reconhecidos Mestres (Rabis), todos representando a Lei de Moisés dentro de seu “território” e época, definindo a sua interpretação nos mínimos detalhes.

Resumo: O judaísmo tem como centro de sua fé um livro: a Torá. É ela que mantinha unido o povo judeu através de séculos de perseguição; uma nação sem pátria, dispersa durante 2000 anos (até 1948). Enquanto houver a Torá, haverá fé judaica e povo judeu. Uma linhagem de líderes e Rabis vem desde Moisés até hoje. Todos eles convergem na Torá.

O cristianismo, desde seu surgimento, destaca-se pelo seu “Único Mestre”: Jesus. Aos seus, Jesus ordenou: “Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos irmãos” (Mat.23.8). Desde os primeiros dias foram coletadas “palavras autênticas” de Jesus (logias). Uma pessoa está no centro, tanto nos evangelhos quanto nas cartas: Jesus.

A igreja cristã não tem uma “assembleia de sábios” que decidem qual a interpretação das Palavras de Jesus. Conforme o próprio Jesus, essa tarefa cabe ao Espírito Santo, enviado em Seu lugar: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (João 14.26).

Resumo: O cristianismo tem como centro uma pessoa, não uma doutrina: Jesus, o Cristo. Tanto nos Evangelhos quanto nas Cartas do Novo Testamento, tudo gira em torno de uma pessoa, sem a qual a religião toda perde sua razão de ser. Todos os “Pais da Igreja”, Mestres e Doutores focalizaram eessa pessoa: Jesus, e não a si mesmos. “Doutrinas” diferentes podem unir e podem separar. Elas são definições humanas, portanto limitadas e não têm glorificado sempre Àquele a quem “foi dada toda a autoridade no céu e na terra” (Mateus 28.18).

Por essa razão, você precisa conhecer Jesus! Não serão as palavras de seu pastor, do papa ou de sua bispa que darão vida à sua fé. Pense na sua Igreja! Pense no cristianismo como você o entende ou como ele está sendo propagado hoje em dia! Ele é norteado pelas palavras de Jesus? Jesus está no centro? Ou seu “cristianismo” se descaminhou para doutrinas, espetáculos e crenças estranhas aos que Jesus ensinou?

No decorrer das leituras do evangelho de João veremos como Jesus entendeu a Torá e como Ele a ensinava. Esse deverá ser o nosso modo de crer e também nortear a nossa interpretação do Antigo Testamento! Que o Espírito Santo, Consolador, faça sua Obra, glorificando Jesus em nossas vidas, conforme a promessa de Jesus em João 14.26.

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